O profeta Gentileza


              O profeta Gentileza




O profeta Gentileza
           José Datrino, chamado Profeta Gentileza, (Cafelândia,   São   Paulo,   11  de abril de 1917 — Mirandópolis, São Paulo, 29 de  maio  de  1996) tornou-se conhecido a partir de 1980 por  fazer inscrições peculiares sob um viaduto no Rio  de Janeiro, onde andava com uma túnica branca e
longa barba.

Sua infância

 Nascido em Cafelândia-SP, no dia 11 de abril de 

1917.   Com mais nove irmãos, José Datrino teve 
uma infância de  muito  trabalho, na qual lidava diretamente com a terra e com os animais. 
Para ajudar a família, puxava carroça vendendo lenha nas proximidades. 
         O campo ensinou a José Datrino a amansar 
burros para o transporte de carga. 
Tempos depois, como profeta Gentileza, se dizia “amansador   dos  burros homens da cidade que 
não tinham esclarecimento”. 
Desde sua infância José  Datrino  era  possuidor 
de um comportamento atípico. 
     Por volta dos doze anos de idade, passou a ter premonições sobre sua missão na terra, na  qual acreditava   que   um   dia,  depois  de   constituir 
família, filhos e  bens, deixaria  tudo  em  prol  de 
sua missão. 
      Este comportamento causou preocupação em 
seus  pais,  que  chegaram a suspeitar  que o filho 
sofria   de  algum   tipo   de   loucura,  chegando  a 
buscar ajuda em curandeiros espirituais.

Surge o Profeta Gentileza

         
No dia 17 de dezembro de 1961, na cidade de 
Niterói,   houve    um    grande  incêndio  no  circo 
“Gran    Circus    Norte  -  Americano”,  o   que   foi considerado uma das maiores tragédias circenses 
do mundo. 
 Neste incêndio morreram mais de 500  pessoas, a maioria, crianças.    Na antevéspera do  Natal, seis 
dias     após    o     acontecimento,    José     acordou 
alegando ter ouvido “vozes astrais”, segundo suas próprias palavras, que  o  mandavam abandonar o mundo  material  e  se  dedicar  apenas  ao  mundo espiritual. O Profeta pegou um de seus caminhões 
e foi para o local do incêndio. 
Plantou jardim e horta sobre as cinzas do circo em Niterói,   local   que   um   dia   foi   palco   de tantas 
alegrias, mas também de muita tristeza. 
Aquela foi sua morada por quatro anos. 
Lá, José Datrino incutiu nas pessoas o real sentido das palavras Agradecido e Gentileza. 
Foi  um  consolador  voluntário,  que  confortou os familiares    das   vítimas   da   tragédia   com     suas 
palavras de bondade. 
Daquele dia em diante, passou a  se  chamar  “José Agradecido”, ou simplesmente “Profeta Gentileza”.
Após deixar o  local  que  foi  denominado  “Paraíso Gentileza”,  o  profeta   Gentileza   começou   a   sua jornada como personagem andarilho. 
A partir de 1970 percorreu toda a cidade. 
Era  visto  em  ruas, praças, nas barcas da travessia entre   as   cidades    do   Rio  de  Janeiro  e   Niterói, 
em    trens    e    ônibus,  fazendo    sua   pregação   e  levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e  pela  natureza  a  todos  que  cruzassem 
seu caminho. Aos  que  o  chamavam  de  louco, ele respondia: –  “Sou  maluco  para  te  amar  e  louco 
para te salvar”.

Os murais

A  partir de 1980, escolheu 56 pilastras do Viaduto 
do   Caju,   que   vai   do   Cemitério  do  Caju  até   a Rodoviária       Novo     Rio,    numa     extensão     de aproximadamente 1,5 km. 
Ele  encheu  as pilastras do viaduto com inscrições 
em verde-amarelo propondo sua crítica do mundo 
e sua alternativa ao mal-estar da civilização. 
Durante a Eco-92, o Profeta Gentileza  colocava-se estrategicamente no lugar por  onde  passavam  os representantes dos povos e incitava-os a viverem a gentileza e a aplicarem gentileza  em  toda  a  Terra

Após sua morte

Em  29  de  maio  de  1996,  aos  79 anos, faleceu na cidade   de    seus   familiares,   onde   se     encontra enterrado, no “Cemitério Saudades”.
Com     o    decorrer    dos   anos,   os   murais   foram danificados por pichadores,  sofreram  vandalismo, 




e mais tarde cobertos com tinta de cor cinza. 
        A   eliminação   das   inscrições   foi   criticado   e posteriormente com ajuda da prefeitura  da  cidade do Rio de Janeiro, foi organizado o projeto Rio com Gentileza, com o objetivo  restaurar  os  murais  das pilastras. Começaram a ser recuperadas em janeiro de 1999.             Em maio de 2000, a restauração das inscrições    foi   concluída  e  o  patrimônio  urbano carioca foi preservado.
         No final do ano 2000 foi publicado pela EdUFF   ( Editora  da  Universidade   Federal Fluminense) o livro   Brasil:    Tempo  de  Gentileza,  de  autoria do professor Leonardo Guelman.       A obra introduz o leitor no  “universo”  do  profeta  Gentileza  atraves 
de sua trajetória, da estilização de seus objetos,  de sua   caligrafia  singular  e   de   todos  os  56 painéis criados  por  ele, além  de  trazer fatos relacionados 
ao projeto Rio com Gentileza e descrever as  etapas do processo de restauração dos escritos. 
      O  livro   é  ricamente  ilustrado   com   inúmeras fotografias,  principalmente  do  profeta  e  de  seus penduricalhos e painéis. Além de fotos  do  próprio profeta   Gentileza   trabalhando   junto  a   algumas pilastras,   existem    imagens    dos   escritos   antes, durante e após o processo de restauração.
Em 2001, foi homenageado  pela  Escola  de  Samba Acadêmicos do Grande Rio.
   Em   Conselheiro   Lafaiete,   cidade  do interior de 
Minas Gerais, há um amplo trabalho feito pela ONG AMAR que dá continuidade ao trabalho  do  Profeta Gentileza. 
   Foram    desenvolvidas    oficinas   com   jovens   da 
cidade,  onde  foi  possível  repassar  as  técnicas   de mosaico. 
Além disso,  um  grande  muro  no  bairro  São  João recebeu uma linda aplicação de mosaico.   E a praça São Pedro, no bairro Albinopólis, foi toda  decorada seguindo o exemplo do Profeta Gentileza.

Profeta Gentileza nas artes

    Gentileza     foi     homenageado   na   música   pelo compositor Gonzaguinha, nos anos 1980; e também pela cantora Marisa Monte, nos anos 1990.  As duas canções levam o nome Gentileza.
    A    canção     de    Gonzaguinha     mostrava      uma homenagem   ao   profeta,   como   se  vê  no   trecho: 
“ Feito  louco  /  Pelas ruas / Com sua fé / Gentileza / 
O profeta / E as palavras / Calmamente/ Semeando / O amor / À vida / Aos humanos”. A canção de Marisa Monte, por  sua  vez, além  de  incentivar  os  valores pregados pelo profeta (no trecho “Nós que passamos apressados / Pelas ruas da cidade / Merecemos ler as letras / E as palavras de Gentileza”), retrata os danos ocorridos contra os murais, como diz o trecho: “Apagaram tudo / Pintaram tudo de cinza /  Só  ficou no muro / Tristeza e tinta fresca.”.
       No ano de 2000, na cidade de Mirandópolis (SP), onde o profeta está enterrado, foi  criada  a  primeira ONG da cidade:  Gentileza  Gera  Gentileza,  fundada por parentes e amigos que admiravam  a  filosofia  de vida do Profeta. A ONG, além de lembrar a pessoa de José  Datrino  ( Profeta  Gentileza), em  sua  criação, tinha a missão  de  difundir  educação  e  cultura  em toda a região.        Vários eventos foram feitos, como: Saraus    mensais  itinerantes,  Encontros  de  Corais, Tardes Culturais para Crianças no Bosque da cidade, Participações  em  Eventos   Escolares  e   um  evento anual denominado “Gentileza Gera  Gentileza”,  com música, teatro, poesia e dança, entre outros.
    Este  ano   (2009), o  profeta  Gentileza  está sendo interpretado pelo ator Paulo José  em  Caminho  das Índias,   nova  novela   das  21h   da   Rede  Globo,  de autoria de Glória  Perez,  que  aborda,  entre  outros temas, a loucura em seus vários aspectos – inclusive o social.

Gentileza, um Profeta que denuncia e anuncia

Como todo profeta, Gentileza denuncia e anuncia. Denuncia este  mundo, regido  “ pelo  capeta  capital que vende tudo e destrói tudo”. 
Vê no circo destruido uma metáfora do  circomundo que também será destruido. 
   Mas  anuncia  a  “ gentileza  que  é  o  remédio para 
todos os males”. Deus é “Gentileza porque é  Beleza, Perfeição, Bondade, Riqueza, a Natureza, nosso  Pai Criador”. 
   Um  refrão  sempre   volta,   especialmente   nas  56 pilastras  com  inscrições  na  entrada  da  rodoviária Novo Rio no Caju: “Gentileza gera gentileza, amor”. Convida a todos a serem gentis e agradecidos. 
Na  verdade,  anuncia  um antídoto à brutalidade de nosso sistema de relações. 
É precursor, sob a linguagem popular e religiosa, de um novo paradigma civilizatório urgente em  toda  a humanidade.
Houve um homem enviado ao Rio por Deus. 
Seu  nome  era  José  da  Trino,  chamado de Profeta Gentileza (1917-1996). 
Por mais de  vinte  anos  circulava  pela  cidade  com 
sua   bata   branca    cheia   de   apliques   e   com  seu estandarte,  pregava  nas  praças  e  colocava-se  nas barcas entre Rio e Niterói anunciando sem cansar: “Gentileza gera Gentileza”. Só com Gentileza, dizia, superamos  a  violência  que  se  deriva do  “ capeta-capital”.    Inscreveu  seus  ensinamentos  ligados  à gentileza   em   56   pilastras  do   viaduto  do  Caju, à entrada da cidade, recuperados sob a orientação  do Prof.      Leonardo    Guelman   que  lhe   dedicou  um rigoroso     trabalho    acadêmico,    acompanhado  de 
vídeo  e   um   belíssimo  um   CD-ROM  com  o  título
       Universo    Gentileza:     a    gênese    de  um   mito contemporâneo.
A   crítica   da    modernidade   não  é  monopólio dos mestres    do   pensamento   acadêmico  como  Freud 
com seu “O mal estar da civilização” ou  a  Escola  de Frankfurt de Horkheimer e seu “O eclipse da razão”, ou Habermas com o “Conhecimento e interesse”  ou mesmo toda    a   produção   filosófica   de  Heidegger tardio. 
O   Profeta  Gentileza, representante do pensamento popular  e  cordial, chegou  à  mesma  conclusão  que aqueles mestres.       Mas foi mais certeiro que eles ao propor a alternativa: a Gentileza como irradiação  do cuidado e da ternura essencial.







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