'Inferno na terra'

'Inferno na terra' 

...há 30 anos, região na Etiópia 

se transforma com mutirões no

deserto.




  Um rio humano flui na empoeirada planície 
Hawzien, na província de Tigray, na Etiópia. 
  Nem parece que foi essa a região onde, há trinta 
anos, houve uma imensa fome que chocou o mundo.

  O repórter  da  BBC Michael  Buerk foi  o  primeiro 
a alertar para a  fome  bíblica, descrita  por  ele  como 
"a coisa mais próxima ao inferno na terra".

    Depois, o  músico  irlandês  Bob  Geldof  escreveu a 
canção Do they know it's Christmas?  (Eles sabem  que 
é  Natal?)  -  uma  pergunta  curiosa  a  ser  feita a uma 
população cristã devota -,  organizou  o  megaconcerto 
beneficente  Live  Aid   e  o   problema    passou  a  ser 
conhecido pelo mundo inteiro.

   Assim, Tigray   tornou-se   sinônimo  de  refugiados, 
ajuda ocidental e  miséria.  A população  foi  retratada  
como sofredora, que dependia da boa vontade do resto 
do planeta para sobreviver.

   Mas, hoje, a cena é totalmente diferente.

   De fora  da  aldeia de Abr'ha Weatsbaha, há gente  de 
todos os lados, no que parece um rio humano. 
   É possível ouvi-los antes de vê-los, já que conversam
animadamente ou cantam  hinos  enquanto  caminham, 
carregando picaretas, pás e machados.
 




 

     A  missão  deles  nesse  grande  mutirão  é  cultivar 
no deserto. 
    "É assim que os reis Axumite faziam as  coisas há 2 
mil anos", diz o guia Zablon Beyene. 
    "Com as mesmas ferramentas também."
    Eles foram convocados antes do amanhecer. 
   Às 10h, cerca de 3 mil estão  aqui, homens  e  
mulheres, com   ferramentas   ou  as   próprias  mãos,  
escavando as encostas,     transformando-as   em  
reservatórios  planos forrados de rochas para represar 
a água da época chuvosa.

   Aba  Hawi, de  58 anos, é  o líder  comunitário  de  
Abr'ha  Weatsbaha e supervisiona todo este esforço. 
   Baixo e barbudo, anda de um lado  para  o  outro, 
gritando ordens pelo celular, dando tapas nas costas 
de  trabalhadores e mostrando aos mais jovens como  
quebrar  pedras  de meia tonelada.

  Rumores  dizem  que   Aba  Hawi  participou  da  
luta  pela independência de Tigray.

  Mas hoje em dia ele prefere se descrever como 
"apenas um agricultor".  De qualquer forma, sua 
liderança incansável transformou, milagrosamente, 
esta terra - e tudo  em  apenas uma década.
 

    Antes, era preciso escavar 15 m para se achar água. 
    Hoje, apenas 3m. 
    E cerca de 38 hectares de terra antes desértica 
foram transformadas em área fértil.

    Famílias agora fazem três colheitas por ano de 
cultivos como milho, pimentões, cebolas e batatas. 
    A pastagem de ovinos, caprinos e bovinos  foi  
proibida para  que  novas  florestas  de  eucalipto  e  
acácias  criem raízes.

    Após uma longa caminhada sob o sol ardente, Aba 
Hawi exibe, com  orgulho, uma  grande  piscina  de  
água  verde, retida por uma enorme barragem 
construída à mão. 
    "Construímos 85 dessas barragens até agora", diz.

    "Você pode ver como elas funcionam. 
    Estes minireservatórios enchem-se  durante  as  
chuvas e são alimentados por águas subterrâneas em 
épocas de seca. 
    Agora, cada agricultor tem um poço".

    Mas o sucesso traz seus próprios problemas. 
    Agora,  Abr'ha  Weatsbaha enfrenta  a  imigração de 
pessoas de vales vizinhos, que clamam por um  pedaço 
deste oásis.

 
"Eles não deveriam precisar vir aqui", diz ele. 
"Cada distrito em Tigray deveria usar trabalho 
comunitário obrigatório para fazer isso mas...", diz 
ele, com um pouco de falsa modéstia "nem 
todos os líderes comunitários são assim....
comprometidos".

E já que o temor com a fome vai ficando para 

trás, ele enfrenta novas exigências. 
"As pessoas querem eletricidade", diz.

Esta terra já foi chamada de "esquecida por Deus". 

Mas Aba Hawi discorda. "Deus estava aqui 
quando a terra era ruim", diz. "E ele ainda está 
aqui. Mas Deus só vai ajudar aqueles que ajudarem 
a si mesmos."
 Fonte: http://www.bbc.co.uk
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