A Força do Amor, Que Muitos não Conhece...


   

“Eu perdi o medo de amar. A fama não me faz falta”


A vida de Fábia Taffarel é feita de escolhas, grandes escolhas. No momento em que estava em ascensão como apresentadora de televisão, depois de já ter sido modelo por 15 anos, ela abdicou da carreira e enveredou no sonho de infância: casar e construir uma família. Depois de 10 anos de casamento, um grande marco na sua vida: o diagnóstico de um tumor na cabeça, fez a cirurgia e perdeu os movimentos do lado esquerdo do seu corpo, inclusive comprometendo a visão. Naquele momento, diz a própria Fábia, ela não pediu a Deus para curar, mas para ser feliz mesmo com a deficiência.

Fábia Taffarel foi apresentadora no SBT nacional, na Globo com o programa Megatom, com Tom Cavalcante

“Eu nunca pedi a Deus para me curar, eu sempre dizia: Deus eu quero ser feliz. A  minha convulsão me deixava muito triste porque era um sentimento de tristeza como se eu fosse infartar. Meu coração disparava e eu ficava fraca”, afirma.

E a ex-modelo garante que hoje é muito mais feliz do que antes, quando vivia a fama de artista. Casada com o cantor Serginho, que foi vocalista da banda Pimenta Nativa, atualmente Fábia se dedica a atividade empresarial em Salvador, ela administra uma boutique e uma franquia de depilação.

Ouvir o relato de vida de Fábia Taffarel é um verdadeiro convite a reflexão da nossa própria vida. Uma mulher que, mesmo com as limitações impostas pela deficiência (de estar com o lado esquerdo do corpo comprometido, inclusive a visão do olho esquerdo), ela própria não se limitou.

A ex-modelo se mostra uma pessoa de muita fé, declaradamente feliz, apaixonada pelo marido, admiradora da simplicidade e que se mantém bela na marca dos seus 40 anos de vida. Quando eu pergunto o seu sonho, Fábia faz uma breve pausa e traz outra lição: “hoje eu vivo um dia de cada vez. Eu tenho que fazer o bem hoje”.O 3 por 4 de hoje é um testemunho emocionante de uma pessoa que assumiu suas grandes escolhas, mergulhou em distintos universos, enfrentou grandes dificuldades de saúde, tem uma deficiência que a limita, mas hoje se declara, verdadeiramente, feliz e sem medo de amar.Com vocês, Fábia Taffarel:O projeto de família, seu casamento, colocou um ponto final na sua carreira de artista (modelo e apresentadora). Foi isso mesmo?Eu sou do interior (Jundiaí, São Paulo) e eu sempre quis casar, ter uma família. Eu fui criada para isso. Eu sempre tive muito trabalho, mas sempre fui muito família. Na semana do meu casamento a Band me chamou para apresentar um programa com Marcos Mion, mas eu neguei: eu disse quero casar e não aceitei o convite. Sei que Serginho (o marido dela, o cantor que foi da banda Pimenta Nativa) jamais deixaria eu recusar um convite desse. Mas ele (o marido) viajava todos os dias. Ele fazia mais de 20 shows no mês. Eu pensei, como vou casar e viver me ponte aérea. Sempre fui muito tradicional. Eu fui criada assim. Não sou a mulher moderna de hoje, mesmo vivendo na televisão, com desfile para grandes estilistas.

Foi um preço muito alto você ter deixado toda sua carreira pelo casamento?

Não. Eu sempre digo que Deus sabe de todas as coisas. E Ele que sabe o que iria ocorrer na minha vida. Eu fiz a melhor escolha, o meu marido. E depois que eu operei (ela retirou um tumor no cérebro) eu pensei tenho duas escolhas: ou ser feliz ou sofrer e viver amargurada e reclamando o resto da vida. Viver aquela menina triste e lembrando “ah eu desfilava”, “ah eu usava salto”.

Quando foi que você descobriu o tumor no cérebro?

Depois de dez anos de casada descobrimos o tumor. Mas antes de eu operar, a gente já sofria porque ficamos dois anos sem saber o que eu tinha. Os médicos achavam que eu estava em depressão. Eu tinha muitas convulsões. Meu tumor estava na localização do emocional, da coordenação, da visão. Nesses dois anos, que ninguém descobria o que eu tinha, Serginho (o marido) fazia tudo para me agradar. O médico falava que eu estava em depressão e ele fazia tudo que eu gostava. Daí eu me sentia mal. Eu tive quase 3 mil convulsões em dois anos. No final do período, eu cheguei a ter 19 convulsões por dia. Meu tumor, quando descobriram, já estava para explodir. Em um mês eu tive que operar.

O que foi mais difícil nessa fase da sua vida?

Eu me sentir triste, coisa que eu nunca fui e nem sou hoje. Aquela época foi mais difícil eu passar mal e falarem que eu estava em depressão, do que hoje, quando estou com essa paralisia. Meu problema é neurológico, eu quero controlar, mas não controla. Pensaram também que eu estava criando tudo isso na minha cabeça (as convulsões). Foi o momento mais difícil, eu senti muita vergonha. Serginho cuidava de mim, ele provou que me amava. E é interessante porque antes de conhecer Serginho (eles se conheceram em Natal) eu já não acreditava mais no amor. Eu cheguei a me preparar para casar, estava tudo certo com meu ex-noivo e depois descobri que ele já tinha outra pessoa. Quando conheci Serginho em Natal eu estava em depressão, muito triste. Eu operei achando que nunca mais ia precisar tomar o remédio que me deixava mal, que é o anticonsulsivo. Mas eu tomo até hoje. Eu não tinha mais as convulsões, mas eu não me sentia bem, mas eu não poderia falar para ninguém porque meu marido ia ficar mal. Depois de cirurgia eu estava paralisada de um lado, cheguei a usar fralda.

Você foi uma modelo famosa, apresentadora. De que sente mais falta?

De nada. Eu sou mais feliz hoje. Sou porque hoje não tenho vergonha.

Mas você não sente falta do momento de glamour, de fama?

Não. Eu tenho Deus e  foi Ele que me sustentou. 

A fama não me faz nenhuma falta.

As pessoas se embriagam com a fama?

Muito. Eu sempre vi, mas consegui ter esse discernimento e sempre me mantive em pé. Como comecei cedo na televisão, vi muitas pessoas acontecerem e sempre queria que fosse do meu jeito.

E o que restou do seu momento de artista?

Não restou, mas eu ganhei a experiência. Eu sempre digo a Deus: eu queria poder falar, do testemunho de vida, que é o testemunho pela vontade de viver. Eu tive duas escolhas depois da cirurgia: viver feliz ou infeliz.

Sua vida foi de escolhas?

É verdade. Mas acho que fiz as melhores escolhas (casar e deixar a vida de artista, e ser feliz mesmo depois da cirurgia e da paralisia).

Você é uma pessoa melhor hoje do que quando estava com a fama?

Hoje eu tenho menos vergonha de viver. Onde eu chegava (na fama) todo mundo olhava e aquilo me deixava tímida. Hoje não. Hoje eu posso chegar toda torta, mancando, jogando a perna, mas eu não me importo se as pessoas vão olhar. A pessoa lhe deixa tímida.

Você se sentia pressionada para estar bela sempre?

Sim. Havia um cuidado excessivo que as pessoas têm por você. Mas eu dei a sorte de não viver isso porque, caso contrário, eu não seria feliz. Eu nunca pedi a Deus para me curar, eu sempre dizia: Deus eu quero ser feliz. A  minha convulsão me deixava muito triste porque era um sentimento de tristeza como se eu fosse infartar. Meu coração disparava e eu ficava fraca.

O que você faz hoje que não fazia antes da cirurgia da retirada do tumor?

Ser feliz mesmo. Hoje eu sou muito mais feliz. Antes eu tinha medo das pessoas. Hoje eu perdi a vergonha, falo mais do amor. Ninguém fala que ama, beija. As pessoas são retraídas, mas eu não. Chego, abraço.

Qual a sua relação com a beleza, já que você sempre trabalhou com ela (a beleza)?

Me incomodava. Eu tinha vergonha. Serginho (o marido) disse que o maior trabalho que teve foi me convencer que eu era bonita. Eu nunca fui vaidosa. Se eu fosse vaidosa não conseguiria encarar minha dificuldade, minha deficiência. Hoje eu tenho uma deficiência. Eu tenho uma prima que teve um AVC e se escondeu do mundo. Eu sempre digo: a pessoa pode ser feliz independente de ter uma deficiência ou não. Eu vivi nesse mundo da moda, da fama, sem nunca ter vivido. Não combinam algumas coisas (do mundo da fama) comigo.

Então por que você entrou no meio da moda, da televisão?

Eu fui escolhida. Meu sonho era ser secretária ou médica. Passei no vestibular depois para Psicologia e Direito, mas nunca cursei porque eu cuidava da carreira de Serginho. E eu não consegui cursar. Mas depois que operei eu nunca tive, no meu coração, a frase “não consegui”. Eu entrei nesse mundo porque tinha um cabelo comprido, olho azul. E minha tia me convidou para participar de um desfile porque ela ia se formar de cabelereira e eu seria a modelo dela. Foi aí que eu entrei porque ganhei um concurso de miss.

Qual sua atividade hoje?

Temos uma clínica de depilação e uma boutique de roupa.

O que você planeja hoje?

O que mais eu gostaria e aos poucos Deus vem me dando, eu estou contando minha história. O meu sonho é poder falar no mundo inteiro, testemunhar. Eu quero falar para as mulheres. Elas (as mulheres) sofrem muito por pouca coisa. Já fui em muitas reuniões e vejo as mulheres chorando, se martirizando. Hoje o que vejo da vida, depois que operei, é isso. Eu fiquei mais sensível e consigo captar melhor isso.

Bate e volta

Sonho hoje:  eu vivo cada dia. É o viver cada dia. Para mim eu dormi e acordei assim (com a deficiência). Eu tenho que fazer o bem hoje.  Eu consigo amar sem ser amada. É de verdade.

Qual sua religião: Deus. Mas eu sou evangélica, tem sete anos e sou batizada há quatro anos.

Seu grande sentimento: amor. Depois que eu operei eu perdi o medo de amar.

Sua relação com Natal: Eu cheguei em Natal quando tinha 18 anos e há 21 anos eu venho aqui e sempre visito as mesmas pessoas.


Fonte:  http://tribunadonorte.com.br  E  Câmera Record

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